DR. MILTON MAGALHÃES

Por Rômulo de Oliveira Silva – Cadeira 23

 

A primeira lição de cirurgia vascular que eu tive já faz muitos anos e não foi na faculdade de medicina. Foi no pronto socorro do hospital cirurgia quando ainda era estudante e acompanhava cirurgia geral. Certa ocasião chegou um paciente com um dedo do pé escuro, necrosado. O cirurgião geral me pediu para solicitar alguns exames básicos e encaminhar o paciente para a sala de cirurgia. Por coincidência passava pelo pronto socorro o cirurgião vascular, Dr. Milton Magalhães. Quando ele me viu preparando o paciente perguntou sobre o caso e por que não o haviam chamado para avaliar o paciente. Sem saber o que dizer, disse o que o cirurgião havia me pedido pra fazer. Então ele foi falar com o plantonista e depois voltou e me disse: “toda vez que aparecer um paciente com um dedo necrosado, não mexa, chame o cirurgião vascular que o internará para realizar a arteriografia e verificar a possibilidade de revascularizar o membro e somente depois, pode-se amputar o dedo. Se você mexer no dedo antes, o paciente tem grande chance de não somente perder o dedo, mas todo o membro.”
Foi assim que conheci Dr. Milton Magalhães. Uma lição de cirurgia vascular que eu levaria pra vida inteira. Ele era um homem culto e temente a Deus. Formado em medicina pela UFS numa turma que formaria outros grandes médicos. Após a faculdade foi fazer residência medica em cirurgia vascular no hospital São Camilo, em São Paulo. Lá foi aluno de um dos pioneiros da cirurgia vascular no Brasil, Dr. Mario Deni. Depois que concluiu a residência médica permaneceu por algum tempo em São Paulo e depois retornou pra Sergipe. Dedicou sua curta existência ao Hospital Cirurgia, como plantonista do velho pronto socorro da Rua Nossa Senhora das Dores. Foi naquele pronto socorro escuro e vetusto que nos encontramos, e foi através dele que despertei o interesse pela cirurgia vascular. Aos poucos foi me chamando para acompanhá-lo nas cirurgias de urgência e depois nas eletivas. Foi um mestre para mim e para um punhado de curiosos que mesmo sem interesse em seguir a especialidade terminaram aprendendo muito com os seus ensinamentos.
Formado também em Teologia pela USP e pastor da Igreja Batista, Dr. Milton era um sujeito inflexível com as suas convicções e sem paciência com os descrentes como eu. Atormentado pela dúvida e consumido por leituras de autores rebeldes da utopia socialista, coisa comum para os jovens daqueles tempos, vez por outra me via em rota de colisão com o chefe nos intervalos dos procedimentos. Mas ele relevava, sabia da minha meninice. Dizia que um dia quando os estertores da rebeldia passassem eu compreenderia. E foi assim, ele estava certo. Muito cedo a morte o alcançou, depois de um longo martírio ocasionado por uma insuficiência renal. Um dia, eu já médico, mandou me chamar pra dizer que depois eu passasse no seu consultório pra pegar algumas coisas que queria me presentear: um ultrassom vascular portátil, alguns instrumentos e livros clássicos de cirurgia vascular. Era uma despedida ao seu modo, mas não tocamos no assunto. Rimos da vida, falamos sobre as nossas aventuras nos longos plantões do velho cirurgia, debochamos com longas e boas gargalhadas das nossas diferenças, como se disséssemos que tudo valeu a pena. Dias depois me ligaram pra dizer que ele havia morrido. Não fui ao velório nem ao enterro, não suportaria. O medo me consumiu. Medo de desabar em prantos sobre o esquife. Medo de a frieza do imobilismo daquele momento permanecer como lembrança final. Preferi lembrar dele das lições inesquecíveis, como aquela primeira quando eu ainda nem sabia o que queria ser. Lembrar da leveza do reparo vascular que tanto me encantava. Preferi ficar com a imagem do bom filho e pai que foi, da integridade do caráter, da fé inquebrantável e da simplicidade do Ser. Preferi lembrar da vida.

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