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DISCURSO DA SESSÃO DE IMPLANTAÇÃO DA AIL.

(Lido no dia 01 de fevereiro  de 2013)

Meus senhores, minhas senhoras.
Hoje é um dia muito especial para a Itabaiana; para a velha Santo Antônio da Itabaiana. Com a instalação desta instituição, fecha-se aqui um ciclo maravilhoso, mas também árduo, difícil, qual seja, o da intelectualização de um povo, que teve de esperar por mais de três séculos pra ter a primeira escola de verdade, espera que, porém foi compensada a seguir com a torrente de pessoas que buscaram nas letras e no conhecimento técnico refinado e superior uma forma de libertar-se das amarras a que foram submetidas, gerações após gerações. Sergipe assombrou o país, desde a revelação do campista Tobias Barreto de Meneses – que foi professor em Itabaiana entre 1855 e 1861 – às crônicas de Sílvio Romero e a fina sociologia nascente de Manuel Bomfim ou a pena refinadíssima de um João Ribeiro, no gestar e nascer do regime republicano; mas Itabaiana, Santo Antônio da Itabaiana, não logrou a mesma sorte, mesmo sendo a segunda sede municipal do estado. É que faltaram escolas. Uma característica econômica de nossa região que confere certa justiça no campo foi ao mesmo tempo forte entrave para que desde cedo pudéssemos despertar para as letras: fomos e ainda somos uma sociedade de minifundiários. E numa sociedade de pequenos, sem o auxílio do governo, como foi a praxe até os anos 40, restou-nos a escolinha de pé de pau, sem estrutura nenhuma e somente para mal aprender a ler, escrever e contar. Anotem isso, senhoras autoridades aqui presente: Itabaiana é o exemplo bem acabado de que investimentos públicos bem focados produzem milagres. Nós não tivemos a sorte da opulência popularizada das Laranjeiras, ou da opulência aristocratizada estanciana, lagartense, santamarense, japaratubense… enfim, dos municípios que, quase todos mais novos que o nosso viram o progresso lhes chegar mais cedo; e pelas suas características produzir para o país os nomes consagrados na intelectualidade brasileira, que tanto nos orgulha a todos os deste pequenino estado. E aqui estamos nós, 76 anos depois da primeira escola de verdade, o grupo escolar Guilhermino Bezerra, a trilhar as veredas abertas a ferro e fogo, se não com sangue, mas com muito suor e lágrimas pelo quase autodidata Francisco Antônio de Carvalho Lima Júnior, avivada por José Sebrão de Carvalho e enfim pelo primeiro grande nome itabaianense de projeção nacional: Maria Thétis Nunes. Curiosamente, todos eles, historiadores. De fato, não tivemos tempo para a prosa e a poesia; não pudemos, na fase áurea da escrita, quando esta tanto se avolumou e era ainda a única forma de transmissão organizada de conhecimentos, formarmos grandes jornalistas, escritores…. nossa poesia foi heroicamente defendida por gente simples como Etelvina Amália de Siqueira, e quando falo em heroica é porque a facilidade que se tem hoje para publicar uma obra, mesmo para os bem posicionados economicamente era naqueles tempos uma via crúcis; que dirá uma sociedade de pequenos; pequenos comerciantes, pequenos agricultores e obviamente pequenos prestadores de serviço. Portanto, em que pese nosso município está com mais de quatro séculos de colonização europeia e se aproximando dos três e meio de institucionalizado como unidade administrativa, intelectualmente ele é uma criança. Uma criança que começa a nascer pra valer em 1936, que toma um vigoroso tônico em 1949 e assume a maturidade em 1969 com simultaneamente dois acontecimentos positivos: a chegada do Segundo Grau à cidade e a fundação do primeiro periódico que realmente fez nascer o jornalismo entre nós: o jornal O Serrano. Coincidentemente, dentre os 15 membros desta Academia hoje empossados, três dos cinco com certa dose de pioneirismo nas letras desta terra tiveram seu batismo de fogo ali: Abraão Crispim de Souza, José Rivadávio Lima e Vladimir Souza Carvalho. Mas, mais do que isso, além dos três citados, todos os demais somos produtos de um novo tempo que começou, como disse há 76 anos; recebeu forte impulso em 1949 e desde então não parou de se multiplicar. Conta-se nos dedos as pessoas de Itabaiana que puderam estudar fora até 1950. Alguns, inclusive, que o fizeram justo por terem se mudado em definitivo, como foi o caso da então garotinha Maria Thétis Nunes, em 1935. Mas, depois de 1960, Itabaiana torna-se cada vez mais um lugar de produção intelectual e isso se vai observar, desde a prática jornalística de um garoto que não queria ser padre, apenas padecer, enviado pro seminário em 1958, uma das raras oportunidades de romper o cordão de isolamento intelectual que se tinha, o nosso Antônio Francisco de Jesus, ao grande expoente itabaianense na capital pernambucana, José Luciano Goes de Oliveira. Em particular, em 1966 um jovem filho de um pequeno comerciante do interior seguia para a capital para se preparar para nos presentear, incialmente com uma obra histórica, a primeira do gênero, a abordar a historiografia de Itabaiana de uma forma mais compacta, já em 1973: Vladimir Souza Carvalho. E não parou por aí. Das suas experiências e de seus colegas de Serrano, uma nova geração cresceu. Esse mesmo movimento inspirou a escrita, desde gente simples como o comerciante José Crispim de Souza, a doutos como a professora Josefa Eliana de Souza, e nossos médicos Luiz Carlos Andrade, Walter Pinheiro Noronha e Antônio Samarone. E não mais parou. No início dos 80 as experiências de O Serrano ainda ecoavam e eis que aparecem com ele, vindo dele ou por inspiração nele mais uma geração, na qual me incluo, mas principalmente que contempla Abraão Crispim, e logo a seguir Luciano Correia e Antônia Amorosa. Mais recentemente tivemos a grata satisfação de resgatar grande parte de nossa cultura popular, tirando-a da simples oralidade para a escrita. Trata-se da conversão em escritor do localmente conhecidíssimo José Augusto Machado, ou, popularmente Zé Augusto Baldók. Baldok, um excelente contador de causos que estreou nas letras num efêmero periódico do jornalista Carlos Alberto Pinheiro, e conseguimos convencê-lo, a duras penas, a permanecer grafando seus contos e causos em um também efêmero jornal que publicamos. Daí migrou para uma coluna fixa na Revista Perfil, onde, estimulado pelos amigos e pelo próprio editor da mesma lançou seu primeiro livro Causos de Itabaiana Grande; ora em preparo do segundo volume mesmo. Por fim, uma grata revelação: a entrada em cena do aparecidense Robério Barreto Santos. Em pouco tempo esse jovem escritor, editor e fotógrafo conseguiu publicar várias obras, incluindo sua revista mensal Omnia, e numa busca frenética fantástica, tem reunindo um maravilhoso catálogo de fotografias antigas, muitas delas inéditas, sobre a história e a cultura itabaianense; além das obras em construção… simplesmente, parte do que hoje estamos tendo aqui, é por justiça, atribuído ao estímulo proporcionado pelo seu trabalho destes últimos tempos. Há ainda vários outros itabaianenses que recentemente também mergulharam na arte da escrita, mas não os citarei aqui, dado à especificidade deste momento.
Senhores e senhoras, recentemente, há precisamente um ano e meio tivemos aqui em nossa cidade o primeiro evento eminentemente devotado à arte da escrita: tratou-se da Bienal 2011. É indescritível pra mim a satisfação que tive ao presenciar ali tanta gente de Itabaiana expondo suas obras. E por que isso? Porque eu venho de uma jornada de mais dez anos de pesquisa onde passei um pente fino até onde pude alcançar em nossa história. E eu vivi cada citação dos governos provinciais sobre as dificuldades em gerir a escola pública, da qual sempre necessitamos; senti o drama de nossos antepassados, condenados a viver na escuridão e limitação do analfabetismo; me imaginei vendo cenas de mães e pais desesperados com a sina de não poder dar ao filho o que meu pai, honrosa e prazerosamente me deu: a condição de estudar… e cada momento desse que vivi, em senti a tristeza de não ter feito Tobias Barreto em Itabaiana, e sim em Olinda a sua estrondosa revelação de intensa capacidade intelectual que ainda hoje ecoa no país; a tristeza de não ter tido durante mais de um século e meio nenhum grande orador na tribuna da Casa Legislativa dos sergipanos, em que pese Itabaiana pouquíssimas vezes ter ficado sem representação naquela Casa, e obviamente também ausente no Congresso Nacional, mesmo tendo eleito um dos dois primeiros deputados que este Estado elegeu para a União; a tristeza de não ter entre os grandes juristas da nação, e até mesmo do Estado ninguém nascido e educado em Itabaiana, mesmo levando em conta o município original do Cafuz à divisa com o estado da Bahia… enfim, de não ter ninguém do porte de nossos irmãos sergipanos de outros municípios dos quais já falei de uns poucos. Um lugar condenado ao trabalho árduo pela sobrevivência; e sem esperanças maiores, salvo a escolha de abandonar pra sempre a sua terra se aspirando crescimento. Hoje, contudo, dá prazer em lermos cada listagem de aprovados nos inúmeros vestibulares; em chegarmos aos templos de conhecimento como o Campus da Universidade Federal de Sergipe e lá encontrarmos tantos itabaianenses, alguns na condição especial de nosso colega Antônio Carlos dos Santos, aqui hoje também empossado; e cujo currículo por si só já espelha sua vida intelectual.
Esta instituição, senhores e senhoras, é, portanto, o coroamento de um processo que é inexaurível desde que começado; que, mesmo trazendo um sinal do tardio progresso educacional de nossa terra, nos enche de alegria e até uma pontinha de orgulho porque demonstra que somos um povo que sabe agarrar as oportunidades quando elas se nos apresentam. E que nunca mais seremos os mesmos. Sua criação, contudo, não é um fim; representa o término de uma etapa, mas principalmente o rápido engatilhamento de outra que já lhe sucede. E que há de produzir maravilhosamente doravante pra compensar nossos três séculos e meio de estagnação.Muito obrigado a todos e que Deus nos conduza.

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O autor:
José de Almeida Bispo, Mangabeira, Itabaiana, Sergipe, 08 de outubro de 1959. Radialista, publicitário, fundou, editou e publicou os efêmeros jornais Tribuna do Povo (mar-abril, 1982), mensal; e o semanal Serrashopping, tentativa de classificados que ficou somente em periódico comum, entre setembro de 1999 a março de 2000. Lançou em 26 de março de 2001 na internet o primeiro portal de Itabaiana, com informações gerais sobre o município, inclusive jornalísticas, inicialmente intitulado itabaiana.inf.br e a seguir rebatizado de portalitabaiana.com.br, permanecendo em rede até agosto de 2003. Fruto deste trabalho pioneiro, também criou sob contrato e lançou na rede em 2002 os portais da Câmara Municipal de Itabaiana e da Câmara de Dirigentes Lojistas de Itabaiana-CDL. Pesquisador sobre a História itabaianense, criou, produziu, editou e publicou a série de documentários em DVD, Itabaiana, Quatro séculos: a História de um povo, com quatro episódios já publicados (Volume 1, História dos Tempos dos Vaqueiros; volume 2, Tempos de Lendas e Tesouros; volume 3, Doces Vales de Sonhos, e volume 4, Sina de Estradeiro), e em finalização o volume 5 e último da série, ainda sem título, com temática centralizada no comércio. Como também frutos destas pesquisas está no prelo o livro “Itabaiana, nosso lugar: Quatro séculos depois”, e em preparo “Sergipe: referências na coleção dos Anais da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro”, sem data prevista para publicação.

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